Terça-feira, Novembro 17, 2009

Histórias de embalar. III



There once was a morose melonhead,
whot sat there all day
and wished he were dead.

But you should be careful
about the things that you wish.
Because the last thing he heard
was a deafening squish.

Melonhead in The Melancholy Death of Oyster Boy and Other Short Stories, Tim Burton

Histórias de embalar. II



One day in the park
I had quite a surprise.
I met a girl
who had many eyes.

She was really quite pretty
(and also quite shocking!)
and I noticed she had a mouth,
so we ended up talking.

We talked about flowers,
and her poetry classes,
and the problems she'd have
if she ever wore glasses.

It's great to know a girl
who has so many eyes,
but you really get wet
when she breaks down and cries.

The Girl with Many Eyes, Tim Burton



Her skin is white cloth,
and she's all sewn apart
and she has many colored pins
sticking out of her heart.

She has many different zombies
who are deeply in her trance.
She even has a zombie
who was originally from France.

But she knows she has a curse on her,
a curse she cannot win.
For if someone gets
too close to her,

the pins stick farther in.

Voodoo Girl, Tim Burton


Histórias de embalar. I



He proposed in the dunes,
they were wed by the sea,
their nine-day-long honeymoon
was on the isle of Capri.

For their supper they had one spectacular dish-
a simmering stew of molluscs and fish.
And while he savored the broth,
her bride's heart made a wish.
That wish came true- she gave birth to a baby.
But was this little one human?
Well, maybe.
Ten fingers, ten toes,
he had plumbing and sight.
He could hear, he could feel,
but normal?
Not quite.
This unnatural birth, this canker, this blight,
was the start and the end and the sum of their plight.
She railed at the doctor:
"He cannot be mine.
He smells of the ocean, of seaweed and brine."
"You shoud count yourself lucky, for only last week,
I treated a girl with three ears and a beak.
That your son is half oyster
you cannot blame me.
... Have you ever considered, by chance,
a small home by the sea?"
Not knowing what to name him,
they just called him Sam,
or sometimes,
"that thing that looks like a clam".
Everyone wondered, but no one could tell,
when would young Oyster Boy come out of his shell?
When the Thompson quadruplets espied him one day,
they called him a bivalve and ran quickly away.
One spring afternoon,
Sam was left in the rain.
At the southwestern corner of Seaview and Main,
he watched the rain water as it swirled
down the drain.
His mom on the freeway
in the breakdown lane
was pounding the dashboard-
she couldn't contain
the ever-rising grief,
frustration,
and pain.
"Really, sweetheart", she said
"I don't mean to make fun,
but something smells fishy
and I think it's our son.
I don't like to say this, but it must be said,
you're blaming our son for your problems in bed".
He tried salves, he tried ointments
that turned everything red.
He tried potions and lotions
and tincture of lead.
He ached and he itched and he twitched and he bled.
The doctor diagnosed,
"I can't quite be sure,
but the cause of the problem may also be the cure.
They say oysters improve your sexual powers.
Perhaps eating your son
would help you do it for hours!"
He came on tiptoe,
he came on the sly,
sweat on his forehead,
and on his lips- a lie.
"Son, are you happy? I don't mean to pry,
but do you dream of Heaven?
Have you ever wanted to die?"
Sam blinked his eyes twice,
but made no reply.
Dad fingered his knife and loosened his tie.
As he picked up his son,
Sam dripped on his coat.
With the shell to his lips,
Sam slipped down his throat.
They buried him quickly in the sand by the sea
- sighed a prayer, wept a tear-
and they were back home by three.
A cross of grey driftwood marked Oyster Boy's grave.
Words writ in the sand
promised Jesus would save.
But his memory was lost with one high-tide wave.

The Melancholy Death of Oyster Boy, Tim Burton

Segunda-feira, Novembro 16, 2009

Prelude


Sonny Stitt, Blows the Blues, Verve, 1970

Let me sigh, let me cry when I'm blue,
Let me go away from this lonely town,
Won't be long till my sun will be blue,
'Cos I know I'm on my last go round.

All the love I could steal, beg or borrow,
Wouldn't heal all the pain in my
soul.

What is love? Only a prelude to sorrow,
With a heartbreak ahead for your goal,
Here I go. Now you know why I'm leaving.
Got the blues. What can I lose?
Goodbye

What is love? Only a prelude to sorrow,
With a hearbreak ahead for your goal,
Here I go- now you know why I'm leaving.
I got the blues. What can I lose?
Goodbye

Blue Prelude, Gordon Jenkins & Joe Bishop

Sábado, Novembro 14, 2009

Sem título







Fotografia de Wolfgang Tillmans (n.1968)

Diâmetro

Há um anjo branco como algodão
que tem estado pendurado, até hoje, na despensa,
num cabide de metal. Graças a ele
nunca nada de mal, em todos estes anos,
me aconteceu- a mim ou, mais importante, à própria casa.
O raio é modesto, pode dizer-se, mas a circunferência
está bem desenhada. Como não foram criados
à nossa imagem e semelhança
- são seres incorpóreos-, os anjos possuem
apenas cor e velocidade. Esta última permite-lhes estar
em toda a parte. É por isso que ainda estás
comigo. As asas e as correias dos ombros
não precisam de um tronco para funcionar,
nem para apreciar o anonimato ou deixar que o corpo
expanda de felicidade o seu diâmetro algures na amena
Califórnia.

Anjo, Joseph Brodsky in Paisagem com Inundação

Sexta-feira, Novembro 13, 2009

Sem título


I Will Not Make Any More Boring Art, John Baldessari, 1971

Uma coisa sem importância

Está a finar-se o século, mas eu finar-me-ei primeiro.
Esta não é, receio, a mensagem do joelho a tremer.
Antes o efeito do não ser

sobre o ser. Do caçador, por assim dizer, sobre a narceja,
aorta ou parede de vermelho tijolo que seja.
Ouvimos que, obsceno, o chicote estraleja

e em vão procuramos os nomes dos que nos amaram,
esperneando nas mãos escorregadias da parteira do lugar.
Só que o mundo perdeu o andar

de quando era um lugar onde couchette, fox-trot, abajour,

combinaison, a malícia na conversa reinavam supremos.
Quem podia adivinhar que a borracha do tempo blasfema

apagaria todas essas coisas como ilegível garatuja
num canhenho? Ninguém, nem uma bruxa.
Contudo, sem que o ritmo dos pés lhe fuja,

foi o que a sua arrastada dança fez. Censura-o, vá.
Hoje em todo lado há antenas, punks, cepos em vez
de árvores. Nem penses em surpreender no café

o teu amigalhaço esmagado pelo destino, nem no bar

o anjo da saia e blusa azul que não se conseguiu elevar
acima da sua pessoa e do cocktail de whiskey, açúcar,

limão e gelo. E em todo o lado gente que escurece a visão,
fazendo ora comprida fila, ora densa multidão.
O tirano já não é um papão,

mas um simples medíocre. O automóvel, do mesmo mo
do, já não é um luxo, mas o meio de varrer o pó
da rua onde a perna pos

tiça do inválido de guerra para sempre se calou, sim senhor.
E o menino está convencido de que o lobo é pior
que o soldado ou o aviador.

E o lenço, sem saberes porquê, passando cada vez mais ao lado
do nariz, assalta o olho, no ramalhar da folhagem muito ocupado,
chamando a si o mais pequeno hiato

que se abre na sebe que isola o inominado,
os tempos em eu, iu, ou proclamando o passado,
a ária de suspense cantada

numa voz de cuco. Voz que hoje soa ainda mais cruel, selvagem

do que, digamos, a de Cavaradossi. Mais ou menos como: "Que me matem...",
ou na melhor das hipóteses: "Tens

de deixar de beber", e escorrega-te a garrafa da mão morta,
embora não sejam padre nem rabi quem aqui bate à porta,
mas a era denominada "fin

de siècle." O preto está na moda: soutien, calcinhas, meias.
Mas quando, no fim, de tudo isso a desenleias,
a tua humilde morada de repente incendeias

com qualquer coisa como uns trinta watts.
E em vez dum exuberante "Vivat!",
"Lamento" os lábios deixam cair num baque.

Tempos novos! Lamentáveis, tristes tempos!
Propondo diminutivos, as montras dos merceeiros
desafiam-nos a adivinhar os nomes inteiros

das coisas que derivam facilmente
daqueloutras que, atrasados tecnologicamente,
equiparamos actualmente

à velha demanda do homem não tanto do que permita poupar energia
como de uma espécie de escravo inanimado,
ou, generalizando, do anonimato

em segurança. E o lógico mas malquisto fim
de multiplicar tudo, da tendência demográfica cuja origem
não está no Oriente nem

no fecho éclair, mas na electricidade. O século está a ficar sem corda.
Exigindo ruínas, vítimas, o vórtice do tempo lança pela borda
Baalbek. E também o homem não o engorda.

Não, dai-lhe emoções! Dai-lhe ideias e um suplemento
de memórias. Tal é o do tempo, e lamento,
amoroso dente. Bom, problemas eu não levanto

e dou. Não me acanho. Estou pronto, por mim,
a ser coisa do passado, se para ele isso é assim
tão interessante, enfim,

que olha de alto ou por cima do ombro a sua miserável presa -
que alguma agitação, mas pouco mais, ainda mostra,
e ao tacto ainda é quente.

Estou pronto a deixar-me cobrir pela areia mutável.
E a que um transeunte de passo instável
não faça de mim o al

vo do vidrado olho da sua máquina, e a que
não lhe instile um qualquer sentimento forte a que
não resista. O que se passa é que

não suporto um tempo que passa. Tempo que não passa
ainda posso suportar, como uma sólida fachada
cujo estilo evoca ora um depósito de lata

ora um tabuleiro de xadrez. Não foi assim tão mau, realmente,

este século, afinal. Bom, talvez de mortos tenha havido excedente.
Mas de vivos, incluindo o autor destes versos, igualmente.

Tantos são, de facto,
actualmente, que podiam ser marinados, prensados

e embalados

para atrair clientes siderais, conhecidos pela qualidade
dos seus magnos sistemas de ultracongelação. A não ser, é verdade,
que insistam no queijo. Que se pode, com a mesma facilidade,

arranjar; os buracos na memória colectiva são disso a prova.
Ao som de catástrofes aéreas em sítios não muito fora
de mão, o século chega ao fim. Um prof,

de dedo no ar, perora sobre as camadas da atmos
fera, explicando o calor e os medos correlatos,
mas não como se faz o trato

daqui até onde a maciça face das nuvens
se enche dos nossos "perdoa-me", e "não me aban
dones", que forçam

o raio solar a trocar por esse argênteo esperma o seu ouro.
Contudo o século, às voltas no seu escritório,
acha até isso retro.


No Polo ladra um cão e uma bandeira esvoaça.
A Oeste vigiam do Leste, de punhos cerrados, a ameaça,
distinguido no má

ximo os quarteis, atacados de espertina. Assustadas pelos punhos,

também as aves dão à asa e partem rapidamente, rumo ao sul
para os uedes e as noras, como é costume,

para os minaretes, turbantes e palmeiras, e mais para baixo rufam
os tam-tam. Mas quanto mais escrutares traços estra
nhos, mais eles se te colam à pele. Concluis então

que, em todo o lado, a relação entre o simples borrão
e, digamos, uma grande tela de clássica demão
reside em que jamais deitarás a mão

a original nenhum. Que a natureza - como o menestrel de antanho suspirando
pelo papel químico, como a câmara secreta guardando
amorosamente o papiro, como a abelha zumbindo

à volta da sua colmeia - aprecia verdadeiramente o múltiplo,
as grandes tiragens, tem horror ao único
e ao desperdício de energia, cujo

melhor guardião é o deixa andar. O espaço é habitado. O tempo
gosta de se roçar na sua nova superfície, tenho
a certeza, infinitamente. Mas mesmo

assim, as tuas pálpebras cerram-se. Só o mar, sem igual,
se mantém sereno e azul, declinando sempre "Vai",
que ao longe soa "Foi".

E quem ouviu tal, tem vontade de largar a pá e a enxada e apanhar
um vapor e navegar e navegar,
para no fim ir saudar

não a ilha, não o bicho por Lineu nunca encontrado,
não os feitiços de novas latitudes, mas o outro lado:
uma boca, uma coisa sem importância.


Fin de Siècle, Joseph Brodsky (1989)

O tempo dirá

As you pour yourself a scotch,
crush a roach, or check your watch,
as your hand adjusts your tie,
people die.

In the towns with funny names,
hit by bullets, caught in flames,
by and large not knowing why,
people die.

In small places you don't know
of, yet big for having no
chance to scream or say good-bye,
people die.

People die as you elect
new apostles of neglect,
self-restraint, etc. - whereby
people die.

Too far off to practice love
for thy neighbor/brother Slav,
where your cherubs dread to fly,
people die.

While the statues disagree,
Cain's version, history
for its fuel tends to buy
those who die.

As you watch the athletes score,
check your latest statement, or
sing your child a lullaby,
people die.

Time, whose sharp blood-thirsty quill
parts the killed from those who kill,
will pronounce the latter tribe
as your tribe.

Bosnia Tune, Josef Brodsky (1992)

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

Muriel




Muriel ou Le Temps d'un Retour, Alain Resnais (1963)

Reencontro

Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava
tão disponível como então eu estava
Mas hoje há os papéis há as voltas dar
há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Tu és a mesma mas nem imaginas
como mudou aquele que te esperava
Tu sabes como era se soubesses como é
Numa vida tão curta mudei tanto
que é com certo espanto que no espelho da manhã
distraído diviso a cara que me resta
depois de tudo quanto o tempo me levou
Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid
havia as ruas as pessoas o anonimato
os bares os cinemas os museus
um dia vi-te e desde então madrid
se porventura tem ainda para mim sentido
é ser solidão que te rodeia a ti
Mas o preço que pago por te ter
é ter-te apenas quanto poder ver-te
e ao ver-te saber que vou deixar de ver-te
Sou muito pobre tenho só por mim
no meio destas ruas e do pão e dos jornais
este sol de Janeiro e alguns amigos mais
Mesmo agora te vejo e mesmo ao ver-te não te vejo
pois sei que dentro em pouco deixarei de ver-te
Eu aprendi a ver a minha infância
vim a saber mais tarde a importância desse verbo para os gregos
e penso que se bach hoje nascesse
em vez de ter composto aquele prelúdio e fuga em ré maior
que esta mesma tarde num concerto ouvi
teria concebido aqueles sweet hunters
que esta noite vi no cinema rosales
Vejo-te agora vi-te ontem e anteontem
E penso que se nunca a bem dizer te vejo
se fosse além de ver-te sem remédio te perdia
Mas eu dizia que te via aqui e acolá
e quando te não via dependia
do momento marcado para ver-te
Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te
e antes de chegares já lá estavas
naquele preciso sítio combinado
onde sempre chegavas sempre tarde
ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses
se ausente mais presente pela expectativa
por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente
Mas sabia e sei que um dia não virás
que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
ou até se exististe ou se eu mesmo existi
pois na dúvida tenho a única certeza
Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?
Aquela hora certa aquele lugar?
À força de o pensar penso que não
Na melhor das hipóteses estou longe
qualquer de nós terá talvez morrido
No fundo quem nos visse àquela hora
à saída do metro de serrano
sensivelmente em frente daquele bar
poderia pensar que éramos reais
pontos materiais de referência
como as árvores ou os candeeiros
Talvez pensasse que naqueles encontro
sem que talvez no fundo procurássemos
o encontro profundo com nós mesmos
haveria entre nós um verdadeiro encontro
como o que apenas temos nos encontros
que vemos entre os outros onde só afinal somos felizes
Isso era por exemplo o que me acontecia
quando há anos nas manhãs de roma
entre os pinheiros ainda indecisos
do meu perdido parque de villa borghese
eu via essa mulher e esse homem
que naqueles encontros pontuais
Decerto não seriam tão felizes como neles eu
pois a felicidade para nós possível
é sempre a que sonhamos que há nos outros
Até que certo dia não sei bem
Ou não passei por lá ou eles não foram
nunca mais foram nunca mais passei por lá
Passamos como tudo sem remédio passa
e um dia decerto mesmo duvidamos
dia não tão distante como nós pensamos
se estivemos ali se madrid existiu
Se portanto chegares tu primeiro porventura
alguma vez daqui a alguns anos

junto de califórnia vinte e um
que não te admires se olhares e me não vires
Estarei longe talvez tenha envelhecido
Terei até talvez mesmo morrido
Não te deixes ficar sequer à minha espera
não telefones não marques o número
ele terá mudado a casa será outra
Nada penses ou faças vai-te embora
tu serás nessa altura jovem como agora
tu serás sempre a mesma fresca jovem pura
que alaga de luz todos os olhos
que exibe o sossego dos antigos templos
e que resiste ao tempo como a pedra
que vê passar os dias um por um
que contempla a sucessão de escuridão e luz
e assiste ao assalto pelo sol
daquele poder que pertencia à lua
que transfigura em luxo o próprio lixo
que tão de leve vive que nem dão por ela
as parcas implacáveis para os outros
que embora tudo mude nunca muda
ou se mudar que se não lembre de morrer
ou que enfim morra mas que não me desiluda
Dizia que ao chegar se olhares e não me vires
nada penses ou faças vai-te embora
eu não te faço falta e não tem sentido
esperares por quem talvez tenha morrido
ou nem sequer talvez tenha existido


Muriel, Ruy Belo

Terça-feira, Novembro 10, 2009

Sem título

Cool summer nights.
Windows open.
Lamps burning.
Fruit in the bowl.
And your head on my shoulder.
These the happiest moments in the day.

Next to the early morning hours,
of course. And the time
just before lunch.
And the afternoon, and
early evening hours.
But I do love

these summer nights.
Even more, I think,
than those other times.
The work finished for the day.
And no one who can reach us now.
Or ever.

The Best Time of the Day, Raymond Carver

Quarta-feira, Novembro 04, 2009

Sem título


Untitled, Sally Mann, 1998 (Deep South)

Terça-feira, Novembro 03, 2009

Eis a questão.

Vladimir: E então, o que é que fazemos?
Estragon: Deixa estar. O melhor é não fazermos nada. É mais seguro.
Vladimir: Vamos esperar para ver o que é que ele diz.
Estragon: Quem?
Vladimir: O Godot.
Estragon: Boa ideia.
Vladimir: Vamos esperar para saber exactamente em que pé estamos.
Estragon: Por outro lado talvez não fosse mau malhar o ferro enquanto está quente.
Vladimir: Estou com curiosidade para saber o que ele tem para nos oferecer. Depois, ou pegamos ou largamos.
Estragon: O que é que nós lhe pedimos exactamente?
Vladimir: Não estavas lá?
Estragon: Não devia estar a ouvir.
Vladimir: Oh... nada de concreto.
Estragon: Uma espécie de oração.
Vladimir: Precisamente.
Estragon: Uma súplica vaga.
Vladimir: Exactamente.
Estragon: E o que é que ele disse?
Vladimir: Que logo via.
Estragon: Que não prometia nada.
Vladimir: Que tinha que pensar no assunto.
Estragon: No sossego da sua casa.
Vladimir: Consultar a sua família.
Estragon: Os amigos.
Vladimir: Os agentes.
Estragon: Os correspondentes.
Vladimir: Os livros.
Estragon: A conta bancária.
Vladimir: Antes de tomar uma decisão.
Estragon: É o procedimento habitual.
Vladimir: É, não é?
Estragon: Acho que sim.
Vladimir: Eu também.

(...)
Estragon (mais alto): Estás a ver alguém a vir?
Vladimir: Não.
Estragon: Eu também não.
Recomeçam a vigilância. Silêncio.
Vladimir: Deves ter tido uma visão.
Estragon (voltando a cabeça): O quê?
Vladimir (mais alto): Deves ter tido uma visão!
Estragon: Não é preciso gritares!
Recomeçam a vigilância. Silêncio.
Vladimir e Estragon (voltando as cabeças ao mesmo tempo): Estás a-
Vladimir: Ai, perdão!
Estragon: Força.
Vladimir: Não não, por favor.
Estragon: Não não, tu primeiro.
Vladimir: Interrompi-te.
Estragon: Pelo contrário.
Olham fixamente um para o outro, zangados.
Vladimir: Macaco de cerimónias!
Estragon: Porco meticuloso!
Vladimir: Acaba a tua frase, já te disse!
Estragon: Acaba tu a tua!
Silêncio. Aproximam-se. Param.
Vladimir: Monga!
Estragon: É isso mesmo, vamos insultar-nos.
Voltam-se, afastam-se, voltam-se de novo e olham um para o outro.
Vladimir: Monga!
Estragon: Lorpa!
Vladimir: Aborto!
Estragon: Besta!
Vladimir: Macaco!
Estragon: Canalha!
Vladimir: Cretino!
Estragon (para terminar): Crííí...tico!
Vladimir: Oh!
Afasta-se, murcho, vencido.
Estragon: Agora vamos fazer as pazes.
Vladimir: Gogo!
Estragon: Didi!
Vladimir: A tua mão!
Estragon: Toma!
Vladimir: Vem aos meus braços!
Estragon: Aos teus braços?
Vlamidir: Ao meu peito!
Estragon: Embora!
Abraçam-se. Separam-se. Silêncio.
Vladimir: Como o tempo voa quando nos divertimos!
Silêncio.
Estragon: O que é que fazemos agora?
Vladimir: Enquanto esperamos.
Estragon: Enquanto esperamos.
Silêncio.
Vlamidir: Podíamos fazer os nossos exercícios.
Estragon: Os nossos movimentos.
Vladimir: As nossas elevações.
Estragon: As nossas distensões.
Vladimir: Os nossos alongamentos.
Estragon: As nossas distensões.
Vladimir: Para aquecermos.
Estragon: Para acalmarmos.
Vladimir: Embora.
Vladimir salta de um pé para o ouro. Estragon imita-o.
Estragon (parando): Já chega. Estou cansado.
Vladimir: Não estamos em forma. E que tal se respirássemos fundo?
Estragon: Estou farto de respirar.
Vladimir: Tens razão. (Pausa). Vamos só fazer a árvore, para o equilíbrio.
Estragon: A árvore?
Vladimir faz a árvore, cambaleia apoiado numa só perna.
Vladimir (parando): É a tua vez.
Estragon faz a árvore, cambaleia.
Estragon: Achas que Deus me vê?
Vladimir: Tens de fechar os olhos.
Estragon fecha os olhos, cambaleia ainda mais.
Estragon (parando, brandindo os punhos, gritando o mais alto que pode): Deus tenha piedade de mim!
Vladimir (vexado): E de mim?
Estragon: De mim! De mim! Piedade! De mim!

(...)
Vladimir: Não vamos perder mais tempo com discursos inúteis! (Pausa. Veemente.) Vamos fazer qualquer coisa enquanto podemos! Não é todos os dias que somos precisos. Se bem que não sejamos precisamente nós a ser precisos. Outros abordariam o problema tão bem quanto nós, se não mesmo melhor. Aqueles gritos de socorro que ainda tilintam nos nossos ouvidos, foram dirigidos a toda a humanidade! Mas neste local, neste momento, nós somos toda a humanidade, quer queiramos quer não. Vamos aproveitar antes que seja tarde demais! Vamos pelo menos por uma vez representar condignamente a asquerosa raça à qual um cruel destino nos consignou! O que é que me dizes? (Estragon não diz nada). É verdade que, quando ficamos de braços cruzados, a pesar os prós e os contras, não deixamos de honrar a nossa espécie. O tigre precipita-se em socorro dos seus congéneres sem qualquer hesitação, ou então esquiva-se por entre as profundezas do mato. Mas não é essa a questão. O que é que nós estamos aqui a fazer, eis a questão. E felizmente temos o privilégio de, por acaso, saber a resposta. É verdade, no meio desta imensa confusão apenas uma coisa é clara. Estamos à espera que o Godot venha-
Estragon: Ah, pois é.
Pozzo: Socorro!
Vladimir: Ou que a noite caia. (Pausa). Cumprimos o combinado, quanto a isso não há dúvida. Não somos nenhuns santos, mas cumprimos o combinado. Quantas mais pessoas poderão dizer o mesmo?
Estragon: Biliões.
Vladimir: Achas?
Estragon: Não sei.
Vladimir: És capaz de ter razão.
Pozzo: Socorro!
Vladimir: Só sei que nestas condições as horas duram mais e nos obrigam a iludi-las com actividades que- como é que hei-de dizer- que poderão parecer à primeira vista razoáveis, até se tornarem num hábito. Poderás dizer que é para evitar o colapso da nossa razão. Sem dúvida. Mas será que não anda ela há já muito a vaguear pela noite sem fim das profundezas abissais? É isso que por vezes me pergunto. Estás a seguir o meu raciocínio?
Estragon (por uma vez aforístico): Todos nós nascemos loucos. Alguns mantêm-se.
Pozzo: Socorro! Eu pago-vos!
Estragon: Quanto?
Pozzo: Cem francos!
Estragon: Não chega.
Vladimir: Eu não iria tão longe.
Estragon: Achas que não chega?
Vladimir: Não é isso, não iria tão longe ao ponto de afirmar que tinha um parafuso a menos quando vim ao mundo. Mas não é essa a questão.
Pozzo: Duzentos!
Vladimir: Esperamos. Estamos aborrecidos. (Levanta a mão.) Não, não protestes, estamos aborrecidíssimos, não vale a pena negar. Muito bem. Aparece-nos uma diversão e o que é que fazemos? Despediçamo-la. Anda, vamos trabalhar! (Avança na direcção de Pozzo e Lucky, pára a meio de um passo). Daqui a nada desaparece tudo e nós ficamos outra vez sozinhos, no meio do nada!
Medita.
Pozzo: Duzentos!
Vladimir: Já vamos!
Tenta levantar Pozzo, não consegue, tenta de novo, tropeça, cai, tenta levantar-se, não consegue.

(...)
Estragon: O que é que se passa contigo?
Vladimir: Nada.
Estragon: Vou-me embora.
Vladimir: Eu também.
Estragon: Dormi muito?
Vladimir: Não sei.
Silêncio.
Estragon: Para onde é que vamos?
Vladimir: Não muito longe.
Estragon: Não, vamos para bem longe daqui.
Vladimir: Não podemos.
Estragon: Porquê?
Vladimir: Temos de voltar amanhã.
Estragon: Para quê?
Vladimir: Para esperar pelo Godot.
Estragon: Ah, pois é. (Silêncio). Não veio?
Vladimir: Não.
Estragon: E agora é tarde demais.
Vladimir: Pois, agora é de noite.
Estragon: E se o esquecêssemos? (Pausa). Se o esquecêssemos?
Vladimir: Ele castigava-nos. (Silêncio. Olha para a árvore). Está tudo morto menos a árvore.
Estragon: (olhando para a árvore): O que é?
Vladimir: É a árvore.
Estragon: Está bem, mas que tipo?
Vladimir: Não sei. Um salgueiro.
Vladimir leva Estragon em direcção à árvore. Ficam imóveis à sua frente. Silêncio.
Estragon: Porque é que não nos enforcamos?
Vladimir: Com o quê?
Estragon: Não tens um bocado de corda?
Vladimir: Não.
Estragon: Então não podemos.
Silêncio.
Vladimir: Vamos embora.
Estragon: Espera, há o meu cinto.
Vladimir: É curto demais.
Estragon: Podias puxar as minhas pernas.
Vladimir: E quem é que puxava as minhas?
Estragon: É verdade.
Vladimir: De qualquer maneira, deixa ver. (Estragon solta a corda com que aperta as calças que, grandes demais, lhe caem pelos tornozelos. Olham para a corda). Em caso de desespero até é capaz de dar. Mas será que resiste?
Estragon: Já vamos ver. Toma.
Cada um segura numa ponta da corda e puxa. Ela parte-se. Eles quase caem.
Vladimir: Não vale nada.
Silêncio.
Estragon: Achas que temos de voltar amanhã?
Vladimir: Acho.
Estragon: Vamos poder trazer uma corda boa.
Vladimir: Vamos.
Silêncio.
Estragon: Didi.
Vladimir: Sim.
Estragon: Não posso continuar assim.
Vladimir: Isso é o que tu pensas.
Estragon: E se nos separássemos? Talvez fosse melhor para nós.
Vladimir: Amanhã enforcamo-nos. (Pausa). A não ser que venha o Godot.
Estragon: E se vier?
Vladimir: Estamos salvos.
Vladimir tira o seu chapéu- o de Lucky-, olha para dentro dele, passa a mão por dentro, sacode-o, bate nele, volta a pô-lo na cabeça.
Estragon: Então? Vamos embora?
Vladimir: As calças.
Estragon: O quê?
Vladimir: As calças.
Estragon: Queres as minhas calças?
Vladimir: VESTE as calças.
Estragon (apercebendo-se de que tem as calças em baixo): Tens razão.
Puxa as calças para cima.
Vladimir: Então? Vamos embora?
Estragon: Vamos.
Não se mexem.

Cortina.


in À Espera de Godot- uma tragicomédia em dois actos, Samuel Beckett, 1948- 49

Domingo, Novembro 01, 2009

António Sérgio (1950-2009)


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