Segunda-feira, Agosto 07, 2006

O Rei à Escuta

"O palácio é todo volutas, todo lóbulos, é uma grande orelha em cuja anatomia e arquitectura se intercambiam nomes e funções: pavilhões, trompas, tímpanos, caracóis, labirintos; somos esmagados no fundo, na zona mais interna do palácio-orelha, da nossa orelha; o palácio é a orelha do rei.
Havia uma voz, uma canção, uma voz de mulher que de vez em quando o vento nos trazia cá acima vinda de uma janela qualquer aberta, era uma canção de amor que nas noites de Verão o vento nos trazia aos pedaços, e mal nos parecia ter apanhado alguma nota logo se perdia, nunca tínhamos a certeza de tê-la ouvido e não imaginado.
Aquela voz vem certamente de uma pessoa, única, irrepetível como todas as pessoas, mas uma voz não é uma pessoa, é uma coisa suspensa no ar, separada da solidez das coisas. A voz também é única e irrepetível, mas talvez de um modo diferente do da pessoa: poderiam, a voz e a pessoa, não ser parecidas, ou então parecerem-se de um modo secreto, que não se vê à primeira vista: a voz poderia ser o equivalente do que a pessoa tem de mais escondido e mais verdadeiro. É um nós mesmos sem corpo que ouve aquela voz sem corpo? Então, quer a ouçamos realmente ou só a recordemos ou imaginemos, não faz diferença.
E no entanto, queremos que seja precisamente o nosso ouvido a sentir aquela voz, e portanto o que nos atrai não é só uma lembrança ou uma fantasia mas sim a vibração de uma garganta de carne. Uma voz significa isto: há uma pessoa viva, tórax, sentimentos, que lança para os ares esta voz diferente de todas as outras vozes. Uma voz põe em jogo a úvula, a saliva, a infância, a pátina da vida vivida, as intenções da mente, o prazer de dar uma forma própria às ondas sonoras.
Tentamos imaginar a mulher que canta? Mas seja qual for a imagem que procuramos atribuir-lhe na nossa fantasia, a imagem-voz será sempre mais rica."
Sob o Sol Jaguar, Italo Calvino